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JUCA <

2019, Curta-metragem Short Film, 29min

Será que Juca tá vindo? Em uma noite de lua cheia, um grupo de amigos precisa pedalar para longe das luzes da cidade em busca de um lugar escuro o suficiente para assistir a uma chuva de meteoros. Em JUCA, os objetos luminosos indicam a cidade e é disso que fogem as personagens.
Nos meus primeiros anos no Urubu, fiz caminhadas e pedalei à noite, fotografando ou não, às vezes acompanhado de algum amigo ou amiga, às vezes com Sputinik, cachorro já falecido, e várias vezes sozinho. Quando conheci Juca, me encantei por poder compartilhar com alguém o mesmo objetivo de pedalar e fotografar à noite, o que nos motivou a fundar o Pedal da Lua Cheia, em que nos juntamos a cada mês para passeios pela região, em meio à vegetação do cerrado, guiados pela luz da lua e sem o auxílio de iluminação artificial. Nossas pupilas dilatam e conseguimos ver. O pedal e Juca me proporcionaram percorrer mais e mais a superfície da região, não só do Córrego do Urubu, mas por trilhas no Taquari, Jerivá, Palha e outros núcleos rurais da Serrinha do Paranoá. Com os espaços novos percorridos, novos personagens surgiam. Pâmela, Will e Fernanda, amigos de infância de Juca, ingressavam nos pedais noturnos, sem que soubéssemos que em dois anos estaríamos filmando um curta-metragem com todos participando do elenco.
As luzes da cidade nos separam das luzes das estrelas e a consequência mais grave talvez seja o risco de nos separarmos da força mitológica criada em torno do firmamento ao longo dos séculos. Em JUCA, as lâmpadas, as estrelas e os ciclistas são corpos celestes recebendo e emitindo radiação. Mas há que se tomar cuidado com a distância que se tem dessas luzes. Os postes colocados para iluminar nossas estradas podem nos separar de ver muito mais longe e então nos separar de nossa presença cósmica. Se a percepção da passagem do tempo se deu com a observação dos corpos celestes e se da combinação disso com questões políticas, sociais e religiosas foram criados os calendários, devemos muito da nossa cultura à observação dos movimentos celestes. Se estamos nos separando do céu, precisaremos de um impulso ficcional mais profundo para imaginar futuros possíveis. Temos que apertar os olhos mais e mais para ver um pouco além do que encobre as poucas estrelas visíveis e imaginar algumas mais.

Is Juca coming? On a full moon night, a group of friends must cycle away from the city lights in search of a place dark enough to watch a meteor shower. In JUCA, the luminous objects indicate the city, from which the characters are trying to run away.
In my early years in Urubu, I went hiking and cycling at night, either photographing or not, sometimes accompanied by a friend, sometimes with Sputinik, a dog who has passed away, and several times alone. When I met Juca, I was delighted to be able to share with someone the same goal of cycling and photographing at night, which motivated us to start the “Full moon pedal”, in which we get together every month for tours in the region, amid the cerrado vegetation, guided only by the moonlight, without the aid of artificial lighting. Our pupils dilate and we can see. The pedal and Juca allowed me to travel more and more through the surface of the region, not only in Urubu, but on trails in Taquari, Jerivá, Palha and other rural areas of Serrinha do Paranoá. As new areas were experienced, new characters emerged. Pâmela, Will and Fernanda, Juca’s childhood friends, joined the night pedals, but we didn’t know then that, in two years, we would be filming a short film with everyone in the cast.
The city lights separate us from the lights of the stars, and the most serious consequence is, perhaps, the risk of separating ourselves from the mythological force created around the sky over the centuries. In JUCA, lamps, stars and cyclists are celestial bodies receiving and emanating radiation. But we have to be careful how far we are from those lights. The street lamps placed to illuminate our roads can prevent us from seeing much further and then separate us from our cosmic presence. If the perception of time passage came from the observation of the celestial bodies, and if calendars were born from the combination of this with political, social and religious agendas,we owe much of our culture to the observation of celestial movements. If we are separating ourselves from sky, we will need a much deeper fictional impulse to imagine possible futures. We have to squint more and more each day to see just beyond of what covers the few visible stars and to imagine a few more.

fotos: Janine Moraes

Maurício Chades é artista visual e cineasta piauiense. Mestre em Arte e Tecnologia e Bacharel em Audiovisual pela UnB, cursa um MFA na SAIC School of the Art Institute of Chicago, no departamento Film, Video, New Media and Animation. Os ecos entre tecnologias antigas e novas; o fluxo de matéria, orgânica, não orgânica e digital; rituais de morte, geometria espectral, ficção especulativa e tensões espaciais são temas que orbitam seu trabalho. Participou de exposições coletivas e exibiu filmes e vídeos em festivais nacionais e internacionais, como: Mostra do Filme Livre, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, RECIFEST, Jornada Internacional de Cinema da Bahia, FILE Electronic Language International Festival, Besides the Screen, Pune Film Festival, Bogotá Experimental e Sphere World Cinema Carnival. Em 2019 apresentou sua primeira exibição solo, Pirâmide, Urubu, na Torre de TV Digital de Brasília.

foto: Silvino Mendonça

Maurício Chades is a visual artist and filmmaker from the Brazilian Northeast. He holds a Master’s Degree in Art and Technology and a Bachelor’s Degree in Audiovisual, both from the University of Brasilia (UnB). He is currently pursuing a MFA at the SAIC School of the Art Institute of Chicago, in the Film, Video, New Media and Animation department. The echoes between old and new technologies; the flow of matter, organic, non-organic and digital; death rituals, spectral geometry, speculative fiction, and spatial tensions are some themes of his work. He participated in group art exhibitions and exhibited films and videos in Brazilian and international festivals, such as: Mostra do Filme Livre, Brasília Festival of Brazilian Cinema, RECIFEST, International Cinema Journey of Bahia, FILE Electronic Language International Festival, Besides the Screen, Pune Film Festival, Bogotá Experimental and Sphere World Cinema Carnival. In 2019 he presented his first solo exhibition, Pirâmide, Urubu, at the Digital TV Tower in Brasília.

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